Silêncio Estrondoso (Baião-folk para Jim Morrison)

01/02/2010 por Milena Torres

Fez-se um silêncio estrondoso
quando o homem morto ainda disse amém
Causou-se um mistério profundo
quando o homem mudo disse que nunca amou ninguém

Hoje eu me retiro e te livro do amor que doei
nunca entendeu quem eu sou
e eu volto pra mim porque ainda sei

Alheio à tantas perguntas estúpidas
eu não quero nunca mais o seu desprezo
a vida ainda presta e carrego na testa
um escudo contra o medo

Pois o homem morto veio do nada
pra me dizer cinco palavras:
A vida vai mais além

O mudo sem dizer uma palavra
disse com as lágrimas
que amava a decadas o mesmo alguém

milena torres

Ato Falho

01/02/2010 por Milena Torres

se eu tivesse agora um dicionário, uma enciclopédia
qualquer livro, um glossário
num ato falho escreveria uma canção para o meu irmão

mas já são tantos, um em cada canto
que eu me desconcentro e me desoriento
quando a paz perde o rumo, mesmo derrubando muros
a ignorância rege a dança e dançam homens, mulheres e crianças

e entre hormônios e neurônios
visitando escombros, escorando em ombros
vou perdendo o rebolado em meio à homens irados
estou desarquivando a informação
(vou escapando pela contramão)

se eu tivesse o diploma que deixei na escola
escreveria agora uma canção para o meu irmão
para qualquer irmão

milena torres

15/12/2009 por Milena Torres

EU SOU MEIO

Sou o que você pensa que eu sou, até quando você quiser
Se um dia quiser entender o que eu digo
Coloque na sua vitrola o disco daquela mulher

Às vezes digo palavras alheias, às vezes digo palavras inteiras
Às vezes digo só porque estou cheia, às vezes as digo sem eira, nem beira

Sou quem você pensa que eu sou, até quando você quiser
Se quisesse mesmo gostar de mim, seria fácil assim
Como ser ou não ser uma mulher

Falo porque não me calo, às vezes calo
Quando minha garganta cria um calo, avisando que é hora de parar, aí eu desligo
Mas falo porque penso e tudo fica logo tenso
Quando relembro que eu também logo existo

Eu sou meio Gitá, meio Frida, meio que calo
Sou meio Maysa, meio Garbo, meio que falo
Eu sou meio Carmem, meio Marta, meio que basto
Sou meio aranha, meio Natasha, meio que mato
Eu sou meio corpo, meio talento, meio que danço
Sou meio universo, você completa o resto, meio que canto

Eu sou meio Mona, meio Lisa, meio Minelli
Sou meio Brida, meio Rita se duvidar confere
Eu sou meio Ella, meio Nina, meio Simone
Sou meio Adélia, meio Cecília, meio Pavoni
Eu sou meio Tizuka, meio puta, meio Marrom
Sou meio Ângela, meio Joana, meio mãe, o meu dom

Eu não sei fazer música, mas por influência de uma viagem lúcida
Com o apoio de uma amiga bruxa apostei nesse dom

Milena Torres

O Beck e o cd

15/12/2009 por Milena Torres

O Beck e o cd

Enquanto um homem feminino canta em silêncio na tv
Um cachorro dormindo sonha com sei lá o quê
Eu nesse Porto Seguro, juro, ainda penso bem em você

E nos cabelos fatais, nos festivais banais
Nas letras que eu preciso escrever

Enquanto saio dessa cidade desintoxicando o coração, me intoxicando de cafeína
Duas mulheres programadas na esquina
Um bate-estaca O’ Connor no meu ouvido
Já penso em lhe escrever dizendo tudo que já não é preciso (dizer)

Sobre os homens da tv, sobre eu, sobre você,
o Beck e seu cd
As belezas banais, os textos fundamentais
As letras que eu quero escrever

Milena Torres

Vamos escrever amor

08/09/2009 por Milena Torres

Vamos escrever amor
Uma carta
Vamos escrever amor
Uma palavra
Vamos escrever amor
Um pingo basta

Rosário é conta e também tem fé
Palavra cantada vai dizer que não é (?)

milena torres

Bela Manhã

08/09/2009 por Milena Torres

Pensei ter cantado agora
Pra você uma canção
Na verdade eu sei que não
Pensei isso agora, agora.

Milena escreve tão parecido
Parece uma aurora

…Ela foi de verde vestida
Vestida do verde dela
Às treze horas a sorte andou consigo
Por trinta minutos

Louva-a-deus agarrou-a perna
Louva-deusa a despertou
Entre as pernas

Salvou rainha
Ficou concentrada em um movimento
Ave Maria!

Milena Torres

Santos

08/09/2009 por Milena Torres

O moço quer de novo a minha amizade
Depois de tê-la jogado cheio de indignação no balde
O que ele quer fazer de novo?

Dizer-me talvez palavras que ficaram engasgadas?
Ou dar o amor que não dera antes
Por estar com a cabeça embriagada?

Ora!
Och!
Não leve a mal
Não darei risada

Mas já não existem os santos
Talvez na real existência
Nunca estiveram
Nunca existiveram

milena torres

Um poema para o Poema

08/09/2009 por Milena Torres

Poema
Tenha pena pô!
Tenha dó!

Eu aqui sozinho
Você aí sem escrito

Cuidado que vira pó!

Pô Poema?!

Se entenda para que eu
Afinal me renda
Ao sono dos justos e mortais.

Milena Torres

Bando de Mundo

08/09/2009 por Milena Torres

Um bando de pessoas querendo ser estrela
E eu pegando carona à lá mineira na sua carreira
Um bando de pessoas querendo ser gente
E eu falando só o que penso, me chamam de inteligente
Mais um bando de pessoas querendo ser elegante
E eu andando quase nua com poucos livros na estante

Ainda um bando de pessoas querendo ser feliz
E eu doando os meus dramas pra uma boa atriz
Um bando de bandido botando banca na DP e eu
Querendo só a droga do amor que dividi com você
Um bando de pessoas querendo ser poeta e eu
Gastando as palavras como se gastasse sorriso em festa

Um bando de pessoas se lixando pro que eu faço e
Pra quem eu sou
E eu que achei que um dia era mesmo
Importante ser doutor

Milena Torres

Ei amigo!

08/09/2009 por Milena Torres

Ei amigo!
Quer sentido?
Sentido no que escrevo?
Frete um ônibus e vá sem endereço
Conhecer o amor que eu já conheço

Milena Torres